Os herbicidas estão perdendo a guerra contra as ervas daninhas nas plantações do País; algumas espécies têm desenvolvido resistência a produtos químicos
Miami (EUA) - A diversificação de culturas para uma produção agrícola sustentável não é uma receita nova, mas ganha mais força a cada dia. Especialmente com o atual cenário em que o controle das plantas daninhas começa a tirar o sono de produtores e pesquisadores. A ameaça vem pela resistência que alguns tipos de mato têm desenvolvido aos herbicidas disponíveis no mercado. No final do mês passado, os casos registrados em todas as Américas foram debatidos durante a 1 Conferência Pan-Americana sobre a Resistência de Plantas Daninhas, promovida pela Bayer CropScience, em Miami (EUA).
Os Estados Unidos, segundo dados divulgados no evento, é o líder com 50% dos registros e 126 tipos de plantas daninhas identificadas como resistentes. Na América Latina há casos de resistência já publicados em 14 países e 33 espécies com resistência a seis modos de ação de produtos químicos.
O Brasil responde por 10% dos casos tendo até agora 21 espécies identificadas. As que mais preocupam são o azevém, a buva, o amendoim-bravo e o capim-amargoso que têm afetado lavouras de soja e milho no Sul do País, todas elas resistentes ao glifosato, considerado o mais eficiente herbicida do mundo. Exatamente a eficiência do produto, ou melhor, o uso continuado e quase que exclusivo, pode ter contribuído para o quadro, associado ao uso de baixas doses do veneno. ""É como tomar um antibiótico pela metade"", ilustra o pesquisador Pedro Cristofoletti, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), de Piracicaba.
No Paraná, segundo o pesquisador Fernando Adegas, da Embrapa Soja, a principal ameaça é a buva, que sem controle pode resultar em perdas de 20% a 30% da produção. O pesquisador Ribas Vidal, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), é mais drástico. Segundo ele sem o controle adequado o dano econômico pode variar entre 80% e 90%. ""Cada planta tem a capacidade de competição com a soja de 0,1% a 0,4% por dia"", alerta. A buva, segundo os dois pesquisadores, compete com a soja na absorção de água, luz e nutrientes do solo.
A velocidade da disseminação da buva no País surpreende a pesquisa, afirma Fernando Adegas. ""Há quatro anos a presença da buva nos campos era considerada normal"", relembra. Uma única planta pode produzir até 200 mil sementes que podem ser levadas facilmente pelo vento. ""Trabalhos mostram que uma semente pode percorrer 68 quilômetros com ventos de 4 quilômetros por hora"", informa.
Uma pesquisa conduzida por ele em 17 propriedades no Noroeste do Estado constatou que em todas as amostras da planta coletadas havia espécies resistentes, variando apenas o grau de resistência. ""Uma planta é considerada resistente quando suporta até duas vezes a dose recomendada pela bula do produto e quando essa resistência passa para suas gerações. Encontramos plantas que resistiram a doses de veneno até 12 vezes superior"", informa.
Sobre os casos com o capim-amargoso, Adegas informa que a suspeita é de que a planta tenha vindo do Paraguai, onde já representa risco econômico. Ele alerta que a espécie tem a mesma capacidade de expansão que a buva (sementes voadeiras). ""É uma planta perene, de difícil controle, mas há uma oferta maior de produtos do que a buva"".
O pesquisador Ribas Vidal, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), observa que o mundo enfrenta atualmente o terceiro episódio de resistência de plantas a componentes químicos. O primeiro deles, ocorrido nos anos 80, ele nomina como a era das triazinas, que não chegou ao Brasil. O segundo caso, identificado em 1992, foi a geração dos inibidores de ALS. A terceira é a que se passa atualmente com a resistência ao glifosato e que pegou ""em cheio"" o País. ""É arrogância da Ciência pensar que é superior à ecologia"", ilustra o professor para explicar o poder das plantas em modificar seu metabolismo como forma de sobrevivência.
■ A jornalista viajou a convite da Bayer CropScience
Célia Guerra
Folha de Londrina